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terça-feira, 22 de novembro de 2011

As histórias do senhor Francisco e a lavoura cafeeira em Coqueiral



Um casal com personalidades distintas. Ela tímida, calada e com mãos de fada para o preparo de deliciosos quitutes. Ele extrovertido, cheio de histórias para contar (inclusive fatos marcantes da cidade) e muito trabalhador. Foi esse simpático casal formado pela dona Nair e senhor Francisco que nos hospedou em Coqueiral, cidade do sul de Minas Gerais.
A recepção foi calorosa. Já na chegada à sede da fazenda, que Nair e Francisco insistem em chamar de sítio, o patriarca da família Machado já nos esperava com um largo sorriso no rosto. Após nos cumprimentar, foi logo contando a história de um pai muito rico, que levou o filho para conhecer a vida dura e pobreza da roça. Ao voltar à sua mansão, o pai questionou ao filho qual a lição havia tirado daquela experiência e, sem titubear, o filho respondeu: pai, aprendi o quanto somos pobres. Temos apenas um pequeno quintal enquanto eles possuem um enorme terreno, temos apenas um cachorro e eles têm vários, não temos árvores em nossa casa e para nos alimentarmos, precisamos comprar tudo no supermercado, sacolão e, lá, eles escolhem o que comer diante de diversas árvores frutíferas, plantações de verduras, legumes e colhem tudo na hora...
Esta foi a primeira dentre várias outras histórias que ouvimos durante todo o dia. Eu e meu marido estávamos embevecidos com tanta informação. A luta deste homem admirável para criar sua família com muita labuta na roça. Apenas um capítulo em sua vida não foi coroado pelo sucesso. Isso aconteceu quando senhor Francisco quis tentar a vida na cidade grande. Porém, ao chegar em Belo Horizonte e após enfrentar várias dificuldades, como conta o próprio Francisco, Deus colocou um padre no caminho dele que o questionou sobre o motivo de estar ali, pois não era seu lugar e o aconselhou a voltar para a roça e para a minha família. Sábias palavras aquelas do padre... o conselho foi seguido à risca e, ao voltar, senhor Francisco pôde desenvolver toda a sua astúcia com a lida na roça, formar sua própria família e se tornar referência em Coqueiral. Conhece e é respeitado por todos os moradores da pequena cidade.
A história de Coqueiral e do senhor Francisco caminham juntas e se misturam. Tanto que foi convidado para contar a história da construção e reforma da igreja local, onde foi montado um mural com o histórico e fotos da igreja e das lideranças locais. E, claro, o senhor Francisco está lá! "Dizem que, na vida, o homem tem que ter filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Minha meta já está cumprida, pois, tive quatro filhos, perdi a conta das árvores que plantei e, agora, não escrevi um livro, mas tem a história da igreja que contei em um mural afixado perto do altar”, conta senhor Francisco, todo orgulhoso.
Francisco entende e já fez de tudo um pouco como trabalhador rural e fez diversos trabalhos de agrimensura. Era tão reconhecido nessa função que até mesmo engenheiros o consultavam para verificar se o cálculo feito estava correto. Com essa mesma disponibilidade e sem medo de encarar os desafios da vida ajudou todos os quatro filhos. Apenas João seguiu seus passos, cuidando como ninguém das terras e lavouras da família. Os demais, cursaram o ensino superior fora e formaram suas famílias. A única filha mora em São Paulo, o mais novo em Varginha e o outro em Belo Horizonte.
Delícias da mesa de dona Nair – A culinária mineira já é por si só sinônimo de qualidade e sabor. Agora pense em aliar essas características ao preparo dos alimentos com produtos naturais, sem agrotóxico, pois foi exatamente esse o privilégio que tive. A mesa posta com imensa variedade de quitutes deliciosos e em nenhum deles foi utilizado produto industrializado. Tudo natural e cultivado nas terras de dona Nair e senhor Francisco. Nos cafés da manhã e da tarde havia leite tirado da vaca; café plantado, colhido, limpo, torrado e triturado na fazenda; queijo fabricado artesanalmente pelas mãos de fada da senhora Nair, broa de amendoim, biscoito de polvilho. Tudo com um sabor inigualável! No almoço e jantar, frango caipira e carne de porco criados no quintal, angu, quiabo, mandioca. Até o arroz e o feijão são das terras, do arado e do cuidado deste maravilhoso casal. Tudo saborosíssimo, com um paladar que eu nunca havia sentido. Huuuuummmmmmm...
À tarde, pudemos entrar na mata e Francisco foi nos apresentando os diferentes tipos de árvore, madeira, frutas, o que era venenoso e não, as madeiras de lei, as plantas ornamentais... Árvores que nunca tive a oportunidade de ver de perto. Uma verdadeira maravilha! Fomos conhecer, ainda o engenho que fabrica a cachaça Americana.

Passamos a noite na casa da cidade (como dizem) e aproveitamos para conhecer a igreja, os casarões antigos e, pela manhã, voltamos para a fazenda, quando fomos levados por senhor Francisco para conhecermos sua lavoura de café. Uma imensidão para se perder de vista. Na época da colheita é necessário contratar mão-de-obra para dar conta de colher tanto café sem contar na ajuda das máquinas modernas que também fazem esse trabalho.
Tudo magnífico e ainda ganhei de dona Nair um frango caipira abatido para prepará-lo em minha casa e, na hora da degustação, matar a saudade e relembrar toda essa aula-magna que tive, proferida pelo professor Francisco. Voltei orgulhosa e extasiada desta viagem. Com certeza, aprendi muito, deliciei-me com tudo, conheci pessoas maravilhosas e agora posso entender o que sentem tantos mineiros que deixaram sua cidade natal e sonham em voltar a viver na roça, cuidar da terra, morar no interior, em uma localidade tranquila e sem violência. Graças a Deus, ao senhor Francisco e dona Nair , posso dizer que vivenciei um pouco dessa experiência e sinto-me privilegiada por isso.
Visitei e recomendo:

Fazenda de café
Engenho da cachaça Americana
Igreja do Divino Espírito Santo
Distrito de Frei Eustáquio

Localização:

Coquerial fica a 280 km de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais e a 61 km de Varginha.

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* Texto e fotos: Karina Motta

Um comentário:

  1. Sr. Francisco é indescritível. Só pode ser vivenciado. Wagner.

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